sexta-feira, 24 de maio de 2013

Reflexos da Cruz


Lição 8 – Reflexos da cruz
Texto bíblico: Gálatas 2.19,20; 3.1,13; 5.11; 6.12-14
Texto áureo
A cruz representa o fator decisivo para a salvação do homem. Ali, foram os pecadores resgatados do pecado e da maldição da lei (Gl 4.5; Cl 2.14). Ali, foi tornada possível a reconciliação com Deus (Ef 2.16; Cl 1.20). Ali, estão os discípulos unidos a Cristo, pela fé (Lc 14.27).

Paulo tornou a cruz o centro de sua mensagem. Na mais pujante declaração da epístola aos Gálatas – “estou crucificado com Cristo” –, Paulo diz como e onde ele morreu para o mundo, para o pecado e para a lei: unido a Cristo, pela fé, na cruz. Assim, o apóstolo definiu que o viver cristão, por meio da fé, é o caminho da cruz.

Você já parou para refletir sobre a relevância do ato de tomar a cruz de Cristo e segui-lo (Mt 10.38)? Nesta lição, focalizaremos os reflexos dessa decisão, aplicando-os à nova realidade diante da qual se encontra cada discípulo de Cristo.

A relevância da cruz

É acertada a afirmação de que o pecado desvirtuou, desorientou e separou o homem de seu Criador. Na cruz, entretanto, Deus está chamando-nos de volta. Pela eficácia da cruz, podemos ter “ousadia... pelo sangue de Jesus, pelo caminho novo e vivo que ele nos inaugurou...” (Hb 10.19a, 20a).

Símbolos importantes são evocados quando pensamos na cruz. Nem todos são verdadeiros. Para os judeus, a cruz era escândalo, vergonha, humilhação. Para os místicos, um amuleto. Para a moda, um acessório que se tornou uma  tendência internacional. Esses sentidos errôneos de nada servirão ao propósito cristão.

Somente o verdadeiro sentido para a cruz interessa ao cristão. Esse significado pode ser encontrado na carta aos Gálatas, que temos procurado interpretar neste comentário. 

ð  Respondendo com apenas uma palavra: o que vem à sua mente, ao pensar na imagem da cruz?

Podemos identificar, entre outras realidades relevantes, quatro sentidos para a cruz de Cristo, que passamos a considerar:

1) Motivo de glória e não de humilhação

“... longe esteja de mim, gloriar-me, a não ser na cruz...” (Gl 6.14). A frase de Paulo evidencia a cruz como o único motivo de glória para o cristão. Segundo esse ensinamento, não há nenhuma ação que possa resultar na salvação do crente, senão aquela em que Deus “deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

O episódio designado “as águas de Meribá” (Nm 20.2-13) ilustra bem essa verdade. Nessa passagem, Moisés, diante de um povo sedento, ousou levar sobre si a capacidade de livrá-los de sua sede. Moisés tinha amplo conhecimento da região e de suas escassas fontes naturais de água. Na ocasião, ele omitiu que a ação de ferir a rocha e encontrar água teria sido orientada por Deus. Excluiu o verdadeiro autor do milagre. Foi duramente repreendido por Deus, que não permitiu que aquele importante líder entrasse na terra prometida com o povo (Nm 20.12). Moisés pecou ao colocar-se no lugar de Deus.

Em relação à cruz, esse mesmo princípio ocorre. Quando o cristão busca justificar sua condição de salvo por seus próprios méritos, acaba por colocar-se no lugar de Cristo. Assim, desmerece o ato de Jesus ao assumir o lugar do pecador, na cruz.

Enquanto os adversários judaizantes ostentavam uma posição espiritual “superior” pela circuncisão e pela guarda da lei, induzindo os gálatas ao erro, Paulo prefere dizer que a verdadeira cruz é aquela em que Jesus triunfou, num ato de graça.

ð  Converse com os demais alunos sobre relações simbólicas entre as ações descritas nos Evangelhos em relação à cruz e às nossas atitudes, hoje:
a)    cristãos que carregam a cruz de Cristo como uma obrigação, como fez Simão (Mt 27.32);
b)    cristãos que, escondidos na multidão, escarnecem da cruz de Cristo, como o fizeram soldados e religiosos de seu tempo (Mc 15.30-32);
c)    cristãos que, decididos a seguir o Mestre, tomam a sua cruz, confiantemente (Lc 9.23).

2) O esvaziamento do impacto do pecado

O ato de o pecado impelir o cristão à destruição é esvaziado na cruz pelos méritos de Cristo e pela instrumentalidade da salvação oferecida. Em razão disso, podemos não apenas enfrentar o pecado interior, mas vencê-lo!

Essa vitória se constrói na declaração de que “o mundo está crucificado para nós” (Gl 6.14). O aspecto verbal usado aqui é importante. Corresponde a uma ação completa, aperfeiçoada, encarada como concluída, mas cujos efeitos permanecem. Assim, na aceitação de Jesus como Mediador entre Deus e o homem e, também, como Salvador e Senhor, pode-se dar as costas para o mundo, pois este não tem mais o mesmo apelo sedutor.

Paulo chega a afirmar, em Romanos, que o nosso velho homem foi crucificado com Cristo “a fim de que não sirvamos ao pecado” (Rm 6.6a). Assim, na cruz, a natureza pecaminosa não reina mais absoluta. Agora, ela tem como adversário o imbatível Espírito Santo. Por intermédio dele, pode-se “aguardar a esperança da justiça que provém da fé” (Gl 5.5).

ð   Que evidências podem ser evocadas para afirmar o esvaziamento do impacto do pecado na vida do cristão?

3) A ruptura consciente contra o pecado

Na cruz de Cristo também está simbolizado o rompimento consciente do pecador com o pecado. É o que Paulo afirma com uma forte declaração: “Os que são de Cristo Jesus, crucificaram a carne com as paixões e concupiscências” (Gl 5.24). A ação descrita, “crucificaram”, aponta para a decisão tomada de deixar o pecado (arrependimento), pelo abandono consciente do estilo de vida pecaminoso.

O que precisamos abandonar? As obras da carne, sob dois aspectos: primeiro, aquelas que estão relacionadas com a impureza interior: “prostituição”, “impureza”, “lascívia” (Gl 5.19), idolatria e feitiçaria (Gl 5.20a). Depois, as que se relacionam ao comportamento social pecaminoso: “inimizades”, “contendas”, “ciúmes”, “iras”, “facções”, “dissensões”, “partidos”, “invejas”, “bebedices” e “orgias” (Gl 5.20b,21).

Essas palavras empregadas por Paulo em Gálatas não têm a pretensão de resumir a ação pecaminosa. São, antes, expressões do comportamento carnal num contexto particular – ocorrências da comunidade cristã na Galácia. Mas, com certeza, vemos muito dessas atitudes em nosso viver diário...

Caso o cristão se deixe vencer pelo desejo interior pecaminoso, essas manifestações carnais ocorrerão com frequência destrutiva. Assim, o desejo de morrer para o pecado deve ser diretamente proporcional à fé que este diz ter em Jesus. Ele é “âncora da alma, segura e firme” (Hb 6.19). Esperar em Cristo é o nosso dever. Uma fé vivida com tamanha realidade leva o cristão ao comprometimento cada vez maior com Cristo.

ð  Dê exemplos da atitude de renúncia completa da velha vida pelo cristão.




4) A morte como um princípio de vida

Tal qual um tanque de guerra atravessando as linhas inimigas, imponente, o pecado tem trazido muita desolação e tristeza. Felizmente, a cruz de Cristo pôs fim a essa epopeia.

Na cruz, anuncia-se a mensagem paradoxal de que a morte é, na verdade, um princípio de vida. Lá, Cristo, o sacerdote perfeito, morreu como o sacrifício perfeito, para nos conceder a vida eterna, pois a cruz não conseguiu detê-lo (Hb 12.2).

A cruz anuncia a morte do cristão para o mundo e também a morte da influência destruidora do pecado. A morte do “ego” humano significa que o nosso querer, sempre contrário a Deus, infiel e decepcionante, submete-se ao Redentor, que vive em nós e nos dá vida (Gl 2.20).

ð  Que decisões de nossa vida íntima e pessoal apontam para a morte do “eu” e para a simbólica “crucificação com Cristo”?

Conselhos úteis

A cruz tornou-se um dos mais impactantes símbolos da história da humanidade. Para muitos, ela é um simples artefato ou amuleto. Para nós, entretanto, representa um estilo de vida.

Enfeites em forma de cruz ou crucifixo nada mais são do que modismo estético com motivos religiosos. O que precisamos mesmo é nos deixar crucificar! Desse modo, assumimos o morrer diário com Cristo (Rm 6.8,10).

Pela glória da cruz podemos nos achegar a Deus “com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; tendo o coração purificado da má consciência...” (Hb 10.22).

E então? Temos experimentado a cruz de Cristo como um processo de vitória contra o pecado, a morte e o mal? Pois isso é o que Deus espera de cada cristão: que estejam “crucificados com Cristo” para a glória de Deus.

Leituras diárias
Segunda       Hebreus 12.1-3
Terça             1Coríntios 1.17-24
Quarta            Filipenses 2.5-10
Quinta            1Pedro 2.21-25
Sexta             Efésios 2.13-22
Sábado          Colossenses 2.13-15

Domingo       Lucas 9.22-26

 Palavra e Vida - 2T2013

terça-feira, 14 de maio de 2013

Lei ou fé, qual a sua escolha?


Lição 7 – Lei ou fé, qual a sua escolha?
Texto bíblico: Gálatas 3.1-14
Texto áureo:
Nesta lição e na próxima, abordaremos os argumentos doutrinários da carta aos Gálatas, os quais exortam contra a atitude de voltar aos ditames da lei de Moisés. Interessa-nos, particularmente, o apelo de Paulo para as evidências da união dos gálatas com Cristo e, também, para a prova escriturística: o exemplo de Abraão.


Legalistas: cegos sagazes guiando cegos ingênuos

Cegos guiando cegos. Assim foi que Jesus descreveu o procedimento ritualista dos fariseus (Mt 15.14). De modo semelhante, os cristãos da Galácia estavam sendo iludidos pelos judaizantes (Gl 3.1b). “Fascinar”, no idioma usado por Paulo, o grego, significa enfeitiçar, encantar e, nesse caso, falar mal da graça salvadora e valorizar as obras.

A submissão espiritual aos ditames da Lei de Moisés representava, ao mesmo tempo, um risco e uma atitude tola (Gl 3.1a). Um risco porque marca a rejeição da liberdade adquirida, por meio da graça de Deus, em Cristo. Uma tolice porque indica um retrocesso o ato de retornar a um jugo de escravidão (Gl 5.1).

ð   O dilema dos cristãos da Galácia continua sendo vivenciado pela igreja? Por quê? Como?

Lei: a espinha dorsal de uma religião impotente

Não há nada de errado ou de ruim na lei de Deus. A lei é espiritual (Rm 7.14a) e o mandamento, santo, justo e bom (Rm 7.12). O problema dessa equação somos nós, pecadores, que fomos desmascarados pela lei (Rm 7.14b). O problema é o efeito destrutivo do pecado em nós, em razão dessa denúncia (Rm 7.11).

Gálatas oferece uma perspectiva muito reservada dessa questão. Mas, para melhor entender os argumentos paulinos, destacaremos o lugar da lei na revelação bíblica.

De acordo com o raciocínio desenvolvido por Paulo, em Gálatas 3, encontramos as proposições seguintes:

● A lei existe por causa do caráter pecaminoso do homem (Gl 3.19). Nesse sentido, todos estão “debaixo da lei” (Gl 4.21a) e, por conseguinte, de sua maldição (Gl 3.10). Na revelação de Deus, o papel da lei é mostrar o pecado, denunciar o pecador, evidenciar a culpa. Desse modo, ao agir como um tutor implacável contra o pecado, a lei o faz abundar (1Co 15.56; Rm 7.9). Escravizados pelo pecado, todos encontram-se impossibilitados de cumprir a lei.

● A promessa, que antecede a lei, visa à fé (Gl 3.17,21). Vindo depois da promessa, a lei não a invalida nem se volta contra ela. Vindo antes da fé, a lei tem caráter temporário e, simplesmente, aponta para a vida a ser concedida pelo Espírito de Deus, quando ocorre a fé (At 26.18; Rm 1.17).

● A lei serviu de aio para conduzir o pecador a Cristo (Gl 3.24). A palavra grega ‘paidagogos’ (aio), que deu origem à palavra ‘pedagogo’ em nosso idioma, era usada para qualificar uma pessoa, geralmente um servo ou escravo, que tinha a responsabilidade de cuidar das crianças da família à qual servia. Entre seus deveres, estavam levar a criança para a escola e zelar por sua segurança. Assim, a lei cumpriu seu papel de ‘guardião’ da humanidade nesse estágio inicial, até o momento em que a fé surgisse no cenário da espiritualidade humana.

A ineficácia e a impotência da lei mosaica diante da maldição do pecado oferecem uma razão coerente para a atitude de Paulo: “eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus” (Gl 2.19). Para ele, viver “debaixo da lei” é o mesmo que “acabar pela carne” (Gl 3.3b), ou seja, viver distante da influência de Deus, seguindo os desejos e instintos naturais pecaminosos despertados pela lei.

ð  Os defensores do legalismo querem convencer crentes novos e inocentes a tomar atitudes altamente prejudiciais, quando não totalmente destituídas de embasamento bíblico. Essa tendência legalista prejudica o progresso espiritual da igreja? Que tipo de ilusão ela oferece?

A proeminência da fé – o caso Abraão

Ilustrar o argumento da fé por meio de Abraão foi um movimento corajoso de Paulo, por várias razões, dentre as quais, destacamos:

1) As principais autoridades religiosas judaicas – e, com certeza, seus adversários na Galácia – insistiam em afirmar ter Abraão por Pai (por exemplo, em João 8.53);
2) Em torno do patriarca Abraão gira a antiga aliança (Gn 17.9);
3) A marca externa que une os adversários de Paulo – e ele próprio – a Abraão é o rito da circuncisão (Gn 17.10), da qual Paulo prescinde em favor da fé (Cl 3.11).
  
Além disso, os inimigos do evangelho – e os crentes que estavam sendo desvirtuados em sua fé – foram surpreendidos por duas afirmações:

Primeiro, a herança da vida foi outorgada mediante a promessa de descendência ao patriarca (Gl 3.18). Na carta aos Romanos, Paulo explica que o cumprimento dessa promessa é Cristo (Gl 3.16; Rm 9.5-7).

Segundo, Abraão é o modelo de fé, a qual é o princípio aprovado por Deus para vivificar o pecador (Gl 3.9). Esse novo sentido de ‘paternidade’ espiritual liga os seres humanos a Abraão pela fé, não pela descendência étnica (racial) (Gl 3.7).

A verdadeira descendência do povo de Deus é aquela que crê. A fé que tem por objeto de confiança Jesus Cristo é o elemento unificador nessa relação espiritual.

Em Gálatas 4, Paulo desenvolve seus argumentos na alegoria das esposas de Abraão – Agar e Sara – e de seus filhos – Ismael e Isaque – os quais simbolizam as duas alianças (Gl 4.22-31).

A alegoria é um recurso literário típico do pensamento greco-romano. Alegorizar é o mesmo que dar um sentido espiritual ao texto literal. Segundo afirma Paulo, “por alegoria” é que se entende o sentido que subjaz à superfície da história da descendência de Abraão.

Na alegoria paulina, a escrava Agar e seu filho Ismael representam a lei. A livre Sara e seu filho Isaque, por sua vez, representam todos os que herdaram a salvação pela graça e favor divinos. Assim, o abandono da lei é imprescindível, pois a instauração do novo pacto destitui o antigo (Hb 8.6-10).

ð  Somos “filhos da promessa” de Deus a Abraão. O que isso significa?

O apelo à experiência pessoal da fé

Nossa experiência de salvação em nada difere da que os gálatas vivenciaram, conforme as observações seguintes:
● a partir da fé na mensagem do evangelho, fomos vivificados pelo Espírito (Gl 3.2); assim, Deus satisfez suas próprias exigências santas e voltou contra si mesmo a ira justa que o pecador enfrenta: “Mas agora, sem lei, tem-se manifestado a justiça de Deus... pela fé em Jesus Cristo para todos os que creem...” (Rm 3.21,22a).
● a operação do Espírito de Deus em nós – principalmente, o milagre da salvação – é a irrefutável evidência de que fomos justificados por Deus (Gl 3.5).

O resultado da fé em Cristo é “o resgate da maldição da lei” (Gl 3.13). Cristo assumiu o lugar do pecador na cruz do Calvário. Tornou-se, ele mesmo, maldição em lugar de todos (Gl 3.13). O sentido claro dessa e de outras passagens que falam do “resgate” da cruz (1Co 6.20; 7.23; 1Tm 2.6) é que a morte de Cristo foi o preço para livrar o homem da penalidade do pecado.

A lei cumpriu seu propósito: “depois que vem a fé, já não estamos debaixo do aio” (3.25). A humanidade amadureceu. Está preparada para a colheita. Imaginemos, por um momento, uma plantação de café. Ela é cuidada com todo o carinho para que, no tempo próprio, o lavrador possa realizar a colheita de seu plantio. A essa imagem podemos associar a transição da lei para a fé.

ð  Cristo Jesus cumpriu a lei e inaugurou uma nova ordem: a era da fé. Como ocorre a vida cristã, nesse novo ambiente?


Conselhos  úteis

O desafio de viver neste mundo como seguidor de Jesus não é fácil. Mas, se nos mantivermos vigilantes diante dos desafios que estão à nossa volta, poderemos resistir e amadurecer nessa carreira ou missão.

A maior lição de maturidade que um cristão pode oferecer é não “tornar aos rudimentos fracos e pobres” do legalismo (Gl 4.9) por três razões básicas: (1) uma concepção legalista da vida é religiosidade artificial; (2) denota um comportamento obsessivo-compulsivo que se alimenta da atitude de julgar; (3) além disso, cria uma falsa hierarquização espiritual, colocando os cristãos em desigualdade.

O jeito mais saudável de viver é colocar em Deus todas as nossas esperanças. Assim é que a fé opera, sem tentativas desesperadas de alcançar a justificação por méritos pessoais. A vida do Espírito em nós prima pela consciência – discernimento espiritual – e pela responsabilidade pessoal de cada crente, consigo e com os demais, seus iguais.
Autor: Davi Freitas de Carvalho
Leituras diárias
Segunda       Fp 3.1-11; Terça      Rm 7.1-6; Quarta     Rm 7.7-14; Quinta   Rm 9.31-33; Sexta              1Tm 1.1-11; Sábado        Gl 3.1-14; Domingo Gl 3.15-29

quarta-feira, 10 de abril de 2013

As bases da fé cristã


Texto bíblico: Gálatas 1.1-5
Texto áureo: 2Pedro 1.2

Durante os próximos três meses, teremos o privilégio de estudar um dos primeiros escritos do Novo Testamento: a Carta de Paulo aos Gálatas. A obra pertence a um estilo literário específico: o gênero epistolar, que, entre outras características, revela:

• uma estrutura formal tríplice, composta por uma saudação inicial, o corpo da carta – que, no caso de Gálatas, apresenta um conteúdo apologético e doutrinal, em defesa do apostolado de Paulo, da justificação pela fé e da liberdade cristã[i]  –,  e uma breve conclusão;
• um caráter ocasional, pois essa carta foi escrita para atender às necessidades espirituais das igrejas da região da Galácia, na Ásia Menor[ii]. Os crentes gentios (Gl 3.8,9) dessa parte do Império Romano sofriam o assédio de mestres judaizantes, que conspiravam para desautorizar o apóstolo Paulo e, assim, abrir caminho para impor aos novos cristãos a observância da lei de Moisés e da circuncisão.  
Na carta aos gálatas, o apóstolo Paulo emerge como o mais intenso defensor da fé cristã em sua época. Às vezes, ele usava de secretários – amanuenses – aos quais ditava as cartas (Rm 16.22; Fm 1; 2Ts 1.1), mas, em Gálatas, ele demonstra intimidade ímpar com seus leitores, pois faz questão de “assiná-la” de próprio punho (Gl 6.11).
Nesta lição, focalizamos a saudação inicial da carta, colocando em destaque as palavras que formam a base da fé cristã, graça e paz, que passamos a considerar:
Graça – onde tudo começou!
As cartas que circulavam no tempo de Paulo traziam uma felicitação grega usual: charein, que significa saudação (ARA), saúde (ARC) (Tg 1.1; At 15.23). Nas mãos do apóstolo, essa saudação tornou-se charis, palavra grega que passou a significar para os cristãos o favor divino em suas vidas (At 11.23; Hb 13.25), sua razão de ser e de existir (At 20.24; 1Co 15.10).
Interessante notar que Paulo reúne Deus Pai e Jesus Cristo como coautores da graça (Gl 1.3; Rm 1.7; 1Co 1.3), que, entre outras realidades, revela-se:
a)     uma oferta de amor eletivo (Rm 11.5; Ef 2.7), à semelhança da inclinação incondicional do Senhor pelo povo de Israel, no Antigo Testamento (Os 11.1);
b)     um dom superabundante, mais do que suficiente para cumprir o propósito redentor do Pai (Rm 5.17-20; 2Co 9.8; Ef 1.7);
c)     um fator multiplicador para a igreja cristã, que responde ao chamado gratuito para a salvação (2Co 4.15);
d)     uma possibilidade real de crescimento e de firmeza para o salvo (2Pe 3.18);
e)     um estilo de vida marcado, não pela observância de leis e códigos religiosos, mas pela disposição humilde de depender do Senhor e de sua orientação (2Co 1.12; Gl 2.21).
Em Gálatas, Paulo explica que a graça de Deus foi efetivada pelo desprendimento do próprio Deus, ao entregar seu Filho à morte de cruz (Gl 1.6; Gl 6.14). Com efeito, sem essa oferta graciosa da parte de Deus, todos estariam perdidos (Rm 3.23).
Paulo ilustra a graça divina ao citar Isaque (Gl 4.28), que é o cumprimento da promessa divina de descendência a Abraão e tipifica o papel de todos os que herdaram a salvação pela graça e favor divinos.
É maravilhoso saber que todos os homens são objetos dessa livre dádiva da redenção, uma vez que não há intervenção humana que possa causar a salvação (Is 45.22; At 15.11a; Ef 2.5) nem substituição para o ato salvador de Cristo Jesus (At 4.12). Mas, em contrapartida, somos alertados e comissionados a viver “na graça de Cristo” (Gl 6.18) para não tornar vã a graça de Deus, pela incredulidade (2Co 6.1).
Tempo de refletir sobre a graça
A Palavra de Deus, no livro de Hebreus, enumera três desafios em relação à graça divina:
• chegar com ousadia e confiança ao trono da graça (Hb 4.16), onde Cristo está assentado a interceder por nós (Hb 8.1,2; 12.2; Ap 8.3);
• não se privar da graça de Deus (Hb 12.15), como na atitude pecaminosa de Esaú, que não se demonstrou arrependido e, por isso, foi rejeitado pelo Senhor (Hb 12.16,17). Tal exemplo serve de alerta para os que insistem em manter um coração obstinado e voltado para as coisas deste mundo (Jd 4);
• reter a graça de Deus (Hb 12.28), atitude que demonstra gratidão (Cl 3.15b) e que produz serviço com reverência e temor (Sl 2.11).
Diante de tão grandes desafios, as indagações seguintes nos fazem refletir:
ð  demonstramos absoluta confiança de que encontraremos ajuda para nossas necessidades pessoais em Deus (Rm 8.26; Sl 27.9)?
ð  Temos sido mais “amigos do mundo”, ou “amigos de Deus (Tg 4.4)? Como escapar da corrupção do mundo, se nele vivemos (2Pe 1.3-8)?
ð  Qual seria nossa autoavaliação – 0 a 10 – no quesito serviço a Deus?

Paz, onde tudo terminou!
Paulo acrescentou outra palavra do vocabulário grego à saudação inicial de suas cartas: eirene, que significa paz. O termo deriva originalmente do hebraico shalom e denota o absoluto bem-estar propiciado pela presença do Deus pacificador (Hb 13.20; Is 9.6,7).
Em Gálatas 1.3, a paz torna-se um sinônimo para a reconciliação entre Deus e o pecador, pela mediação de Cristo (Is 53.5; Cl 1.20; Ef 2.14). Desse modo, a graça precede a paz, que, por sua vez, serve-lhe de selo (Sl 4.8).

Em Gálatas, a bênção da paz apresenta um aspecto prático, pois ela é parte essencial do fruto do Espírito (Gl 5.22), com as implicações seguintes:

a)  apresenta uma dimensão vertical e interior – a verticalidade da paz pode ser apreendida pela transformação do relacionamento do homem com Deus, que foi interrompido pelo pecado (Rm 5.12). Assim, em paz com Deus, cada pecador é reconduzido ao estado de comunhão com ele (Jó 22.21; Is 26.3). Já a estatura interior da paz percebe-se pela harmonia e restauração do espírito humano, antes fragmentado pelo pecado e repleto de culpa (Is 38.17; Lc 7.50). Em Cristo, enfim, a alma pode descansar em completa segurança (Mt 11.28,29).

b)  apresenta uma dimensão horizontal e exterior – no que se refere ao conceito da horizontalidade da paz, ele abrange o relacionamento do homem com o seu semelhante (2Co 13.11; 1Pe 3.11). Desse princípio, aferimos que a paz social é uma exigência da justiça de Deus para a vida humana (Rm 14.17). Assim é que a justiça divina encontra sua semeadura entre os pacificadores (Tg 3.18; Is 55.12a).

Tempo de refletir sobre a paz
A violência é o retrato vívido da sociedade em que vivemos. Assusta ler sobre a violência física – a rádio CBN publicou em seu sítio a notícia de que o Brasil ocupa a quarta pior colocação na classificação dos países violentos[iii] – mas a violência simbólica, como a que é promovida pelos meios de comunicação (TV, cinema), sob a forma de uma produção cultural, produz um efeito muito mais intenso em nós.

Que fazer? Como atuar na condição de agentes da paz de Deus neste mundo?

• Primeiro, pela oração (1Tm 2.1,2). O atual estado de coisas demonstra a fragilidade de nossas instituições políticas. Por essa razão, devemos orar por nossos governantes, a fim de que atuem como ministros de Deus, para a manutenção da justiça e da paz (Rm 13.4);

• Segundo, ao guardar, com zelo santo, a unidade espiritual (Ef 4.1-3). Isso significa adotar um espírito humilde, manso e longânime (2Tm 2.24), caracterizado pela prontidão para perdoar e pela capacidade de suportar pacientemente as fraquezas uns dos outros (Cl 3.13).

Conselhos úteis 

É da autoria de Charles Spurgeon a frase que diz: “A profissão de fé sem a graça divina é a pompa funerária de uma alma morta”. Concordo. Não somos salvos por nossos próprios méritos. Atitudes cerimoniais e religiosas não produzem salvação (Lc 18.18-23), apenas a refletem (Fp 1.6-11). A verdadeira salvação nos alcança pelo favor imerecido de Deus. O salvo encontra-se escondido em Cristo, uma vez que morreu para o mundo e o pecado, pelo ato justificador da fé (Cl 3.3; Rm 5.1).

É da autoria do Senhor Jesus a frase que diz: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9). Esse é o nosso chamado para a paz (Cl 3.15a). Assim, quem deseja ser feliz deve promover a paz (Rm 10.15; Ef 6.15), amar a paz (Zc 9.10b) e viver na paz de Deus (Rm 12.18), que excede todo o entendimento, guarda os corações e sentimentos humanos, pela obra redentora de Cristo Jesus (Fp 4.7).


[i] WALLACE, Daniel B. Galatians: introduction, argument and outline Acessado em 17 de janeiro de 2013, às 18h00>.
[ii]  As duas teorias sobre os destinatários da Carta não são conclusivas, mas, nesta lição favorecemos a tese conhecida como teoria da Galácia do Sul (Bruce, F. F. Galatian problems: North or South Galatians? – Publicação da Biblioteca John Rylands 52.2 (1970): p. 243-266 – pode ser acessado ou baixado em www.ntgateway.com/paul-the-apostle/galatians/introductory-materials).

terça-feira, 19 de março de 2013

Adoração e Missão


Texto Bíblico: Mateus 17.1-8, 14-20

Introdução

Chegamos ao fim de uma série de estudos sobre princípios bíblicos para o culto cristão. Há muito que se falar sobre o assunto, mas, durante o trimestre, pudemos pelo menos oferecer lampejos, “pontapés iniciais” para reflexões mais profundas e extensas.
Hoje, veremos que a adoração da igreja está intimamente relacionada com a missão. Um tema chama o outro. Adoração e missão andam de mãos dadas, até porque adoração sem consciência de missão pode ser alienante, e missão sem consciência de adoração pode ser apenas uma militância ideológica.
Como família de Deus, temos de fugir das águas correntes do extremismo. Adotar um extremo como estilo de vida é mais fácil que buscar o equilíbrio. As circusntâncias, até mesmo eclesiásticas, podem nos empurrar para os extremos, assim como as águas do mar fazem com um bainhista, que, para sobreviver, fugirá da correnteza.
Faz parte da mensagem cristã a vida futura. O céu é um tema bíblico e deve ser cantado e pregado nas celebrações litúrgicas e fora delas. Mas a esperança do céu deve nos levar à missão e não à acomodação.
O reino de Deus é futuro, mas também é presente. O “venha o teu Reino” (Mateus 6.10), da oração conhecida como Pai-Nosso, continua e sempre continuará sendo verdade absoluta de Deus. O problema não é a vinda do reino de Deus, e sim o comprometimento parcial dos cristãos com ele. Temos falhado por nos doarmos tão pouco à causa do Reino, talvez pela ilusão da ocupação com causas menores.

1. Adoração na Tranfiguração

Lemos o belíssimo relato da Transfiguração. É um dos textos que mais me encantam na Bíblia. Julgo-o essencial para entender o significado da adoração e da missão. Passar de lado diante desse registro sagrado é perder um elo precioso entre os Testamentos.
Seis dias depois da confissão de Pedro em Cesareia de Filipe (Mateus 16.13-16), aconteceu o episódia da Transfiguração. Ele não é um acaso na história da igreja, porque Jesus trabalhou por aproximados três anos para que os discípulos entendessem que Ele era o Messias, o enviado da parte de Deus, e para que chegassem à profundidade da adoração que leva à missão.
Com a confissão, Jesus passa a orientar os seus discípulos para outro momento em sua trajetória terrena: a morte de cruz (a paixão). Antes da crucificação, era de suma importância que os discípulos entendessem que Jesus é o Emanuel, o Eterno, O Deus-Homem. A Transfiguração é o ponto central desse entendimento, porque naquele monte os três discípulos da linha de frente (Pedro, João e Tiago) viram o Pai transfigurar o Filho: “o seu rosto resplandeceu como o Sol e suas roupas tornaram-se brancas como a luz” (v.2).
Estava sendo anunciado o que Paulo registrou em Colossenses 2.9: “[Em Jesus] habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Jesus não é um homem comum; Ele é especial, é divino, é o próprio Deus morando entre a humanidade.
Ainda aparecem Moisés e Elias conversando com Jesus. Lucas informa o assunto da conversa deles: “apareceram em glória e falavam da sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém” (Lucas 9.31). Moisés tipifica a lei, e Elias, os profetas. Diante dos discípulos, portanto, estão a lei, os profetas e a nova revelação: Jesus.
Na Transfiguração, os discípulos aprenderam a centralidade cristológica da adoração. Moisés e Elias foram muito importantes, mas passaram. Seus ministérios foram circunstanciais. Jesus é diferente, pois o seu ministério é perfeito, pleno, suficiente e cabal.
A igreja é de Cristo e qualquer voz que tente competir com a dele, deve ser refutada. Só Deus é digno de adoração!

2. Missão na Transfiguração

Estava tudo tão bom lá em cima, que Pedro sugeriu que ficassem por lá mesmo: “Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (v.4). Essa proposta excluía a missão e foi reprovada pelo Pai.
Pedro e os outros discípulos ficaram maravilhados com tudo o que estavam vendo. Era um presente ver Moisés, Elias e Jesus conversando, especialmente no imaginário de um judeu. Imaginem a emoção de contemplar a lei, os profetas e o Messias! Mas essa contemplação não era o propósito de Deus para eles. A Transfiguração tinha um sentido muito mais profundo para o reino de Deus.
Pedro ainda estava falando e veio uma nuvem, que os cobriu, e Deus falou do meio dela: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado; a ele ouvi” (v.5). Pedro queria a contemplação e Deus os estava preparando para a missão.
Ficar no monte é muito bom, é ótimo até, mas a vida cristã real acontece no vale. O monte dá uma ideia de estabilidade, mas a adoração que ganha sentido prático acontece no vale.
Os discípulos precisavam entender que não seriam Moisés e Elias aqueles que dariam suporte para a missão no vale, mas Jesus Cristo, o Senhor da igreja. Foi Jesus quem disse: “e indo, pregai, dizendo: o reino do céu chegou” (Mateus 10.7). E também: “ide, fazei discípulos de todas as nações (...) e eu estou convosco todos os dias” (Mateus 28.19,20).
Interessante que os discípulos ficaram com medo quando ouviram a voz de Deus (v.6). Eles foram confrontados diante de uma postura equivocada, por mais que possa ter sido bem intencionada.
Jesus os consolou, reanimando-os, e eles perceberam que não havia mais ninguém a não ser Jesus (v. 7,8). Vale a pena aproveitar e lembrar que todos podem nos abandonar, mas Jesus nunca nos abandona. Ele tratou os discípulos e tem nos tratado constantemente. Glória a Jesus!
Pensando em missão, o episódio seguinte ao da Transfiguração é muito apropriado. Os discípulos queriam continuar na contemplação, mas, ao descerem do monte, a vida real já se apresentou duramente. Um homem procura a Jesus e diz: “Senhor, tem compaixão de meu filho, porque ele tem convulções e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes, na água. Eu o trouxe aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo” (v.15,16). Jesus reprovou os discípulos, chamando-os de geração incrédula e perversa (v.17). É claro que Jesus também expulsou o demônio, contemplando, assim, o pedido daquele pai (v.18).
No monte Jesus é glorificado, no vale os demônios agem ferozmente. Volto a dizer que adoração e missão têm de andar de mãos dadas porque é no mundo, ou seja, no meio das pessoas que Jesus nos quer como sinalizadores do seu Reino. É no vale que acontece o nosso ministério.
Temas como esperança, paz e justiça também precisam fazer parte dos repertórios das músicas e dos sermões nas celebrações litúrgicas. Os cultos devem abordar a adoração, sem falhar com a missão. Noutras palavras, cumprir a missão é expressão de adoração.
Devemos entrar no templo com mente e coração voltados para a adoração, mas devemos sair dele inflamados com a missão. A igreja se reúne e se espalha. Tão importante quanto a sinceridade da adoração para a reunião, é o compromisso com a missão para o envio. Sair do templo é sair para o nosso campo missionário.
Um dos momentos que mais me comovem no culto (são tantos, na verdade) é quando dispeço os meus irmãos em nossa igreja com a bênção pastoral em nome de Jesus. Mexe comigo saber que aquele povo, espalhado pela cidade, está em missão, na autoridade do Supremo Comissionador.

Para pensar e agir

Jesus é o nosso modelo perfeito de adoração e missão. Temos de aprender com Ele e enraizar o ideal maior de querer ser iguais a Jesus.
No fim do século 19, o pastor americano Charles Sheldon escreveu um livro que marcou muitas gerações: “Em seus passos, o que faria Jesus?”. A obra de ficção, mas cheia de realismo, fala de uma igreja em que o pastor Maxwell ia muito bem até que lá chegasse um bêbado. Durante décadas, esse livro foi o mais lido depois da Bíblia. Ele inspirou, no passado, muitos cristãos a se despojarem de bens para colocarem em primeiro lugar o reino de Deus, principalmente vendo no próximo a figura de Jesus.
Tomando emprestada a questão levantada por Charles Sheldon, concluindo a lição – e também o trimestre – sugiro que, em todas as circunstâncias da vida, nos perguntemos: em meus passos (ou em meu lugar) o que faria Jesus, aqui e agora?

Leituras Diárias
Segunda: Salmo 143
Terça: Salmo 144
Quarta: Salmo 145
Quinta: Salmo 146
Sexta: Salmo 147
Sábado: Salmos 148 e 149
Domingo: Salmo 150

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